Cada módulo do Sherlock responde a uma pergunta específica. O valor real da plataforma aparece quando dois ou mais módulos são usados em sequência, transformando uma intuição inicial em conjunto verificável de dados.
Este capítulo apresenta cinco fluxos de investigação típicos. Os casos descritos a seguir são hipotéticos. Servem para demonstrar o método, não para apontar pessoas específicas.
Ponto de partida. Uma empresa apareceu como contratada em um ato publicado no Diário Oficial da União. O valor do contrato chama atenção e o objeto é genérico.
Fluxo de apuração:
AchaDOU — Localizar o ato publicado. Conferir contratante, objeto, valor, modalidade da licitação, vigência. Verificar se há outros contratos da mesma empresa publicados nos últimos meses.
AchaSócios — Consultar o CNPJ da empresa. Identificar os sócios. Verificar data de constituição: empresas muito recentes com contratos altos merecem atenção. Examinar capital social declarado em relação ao valor do contrato.
AchaSócios (cruzamento) — Para cada sócio, listar outras empresas em que figura. Identificar se há grupo econômico constituído por empresas com mesmo perfil de fornecimento ao governo.
AchaDevedores — Verificar se a empresa contratada ou os sócios constam na dívida ativa da União. Empresa com débito tributário relevante celebrando contrato público é situação passível de questionamento.
AchaDoações — Listar doações eleitorais dos sócios. Cruzar com o partido ou candidato vinculado ao órgão contratante.
O que isso revela. Padrões anômalos — empresa nova com contrato alto, grupo econômico concentrado em fornecimento público, sócios inadimplentes ou doadores recentes do ente contratante — não constituem prova, mas justificam apuração adicional fora do Sherlock.
Ponto de partida. Um político está prestes a disputar uma eleição. A imprensa local levanta dúvidas sobre seu padrão de vida.
Fluxo de apuração:
AchaCandidato — Localizar todas as candidaturas da pessoa. Identificar partidos, cargos disputados, situação no pleito.
AchaDeclarações — Comparar os patrimônios declarados em cada eleição. Verificar variação absoluta e percentual. Identificar a posição da pessoa no ranking de patrimônio de cada pleito.
AchaSócios — Listar todas as empresas em que a pessoa figura como sócia. Comparar com o que foi declarado ao TSE — bens não declarados podem indicar omissão deliberada.
AchaAeronaves — Verificar se a pessoa ou empresas vinculadas detêm aeronaves. Cruzar com declarações de bens.
AchaDoações — Conferir doações recebidas pelas campanhas e doações feitas pela pessoa em outras eleições.
O que isso revela. Saltos de patrimônio incompatíveis com a renda declarada, bens em nome próprio ausentes da declaração ao TSE, participações societárias omitidas — são indícios clássicos historicamente investigados pelo Ministério Público Eleitoral.
Ponto de partida. Um deputado destinou volume elevado de emendas a um único município pequeno, distante de sua base eleitoral.
Fluxo de apuração:
AchaEmendas — Localizar todas as emendas do parlamentar. Filtrar pelo município ou ente beneficiário em questão. Identificar valor total, tipo de emenda e ano de execução.
AchaEmendas (visão inversa) — Pela ficha do município ou fundo beneficiário, verificar quais outros parlamentares também destinaram recursos para o mesmo local. Concentração de emendas de parlamentares sem base eleitoral local sugere coordenação.
AchaDOU — Procurar contratos publicados pelo município ou fundo nos meses seguintes ao recebimento da emenda. Identificar quem foram os contratados com o recurso.
AchaSócios — Para cada empresa contratada, identificar sócios. Cruzar com a base eleitoral do parlamentar ou com sua rede de doadores.
O que isso revela. Concentração geográfica e temática de emendas, seguida de contratos para empresas conectadas ao parlamentar ou a seu grupo político, é padrão clássico de operação investigada por órgãos de controle.
Ponto de partida. Um membro do alto escalão do governo é alvo de denúncias. A apuração busca entender suas conexões patrimoniais.
Fluxo de apuração:
AchaSócios — Listar todas as empresas em que a pessoa figura como sócia, hoje e no passado. Identificar o tipo de atividade das empresas.
AchaSócios (cadeia societária) — Para cada empresa identificada, mapear os demais sócios. Construir o grafo de relacionamentos até dois níveis de profundidade.
AchaDevedores — Verificar se as empresas vinculadas constam na dívida ativa da União.
AchaCandidato e AchaDeclarações — Se a pessoa já foi candidata em algum momento, conferir o patrimônio declarado e cruzar com as participações societárias atuais.
AchaAeronaves — Verificar aeronaves em nome da pessoa ou de empresas do círculo próximo.
AchaDOU — Procurar contratos públicos celebrados com qualquer empresa do círculo identificado.
O que isso revela. O método monta o retrato patrimonial e empresarial de uma figura pública a partir de fontes oficiais exclusivamente, montando o esqueleto de uma apuração que pode prosseguir com fontes diretas e documentos primários.
Ponto de partida. O ministro Flávio Dino determinou, em novembro de 2024, que verbas pagas a magistrados acima do teto constitucional precisam ter fundamento legal expresso. A apuração busca verificar o cumprimento da decisão em um tribunal específico.
Fluxo de apuração:
AchaPenduricalhos — Selecionar o tribunal e o mês mais recente disponível. Gerar o ranking dos maiores líquidos.
AchaPenduricalhos (detalhe) — Para cada magistrado acima do teto, abrir a ficha de rubricas. Identificar quais verbas compõem o valor acima do limite.
AchaDOU — Procurar a base legal de cada verba paga acima do teto. Verificar se existem lei, decreto, resolução ou ato administrativo que ampare a rubrica.
AchaPenduricalhos (comparação temporal) — Comparar a folha do tribunal nos meses anteriores e posteriores à decisão. A variação na composição da remuneração indica o efeito prático da nova jurisprudência.
O que isso revela. Rubricas extra-teto sem amparo legal expresso contradizem a decisão Dino. O método fornece o material factual para apuração junto à corregedoria do tribunal ou ao próprio CNJ.
Cinco princípios atravessam todos os fluxos descritos:
Começar pelo dado mais específico. Quanto mais identificadores de partida (CPF mascarado, CNPJ, número de processo), menor a margem de erro.
Cruzar antes de concluir. Um único módulo raramente fecha uma apuração. Dois ou três módulos em sequência elevam a confiança no indício.
Salvar o caminho. Anotar a sequência de buscas e os identificadores encontrados permite reconstruir a apuração depois, inclusive para terceiros que queiram conferir.
Não confundir indício com prova. O Sherlock entrega indícios. A prova jornalística exige confirmação por outras fontes e documentação adicional.
Respeitar o que está fora do alcance. CPF completo, dados bancários, contratos privados, cotistas de fundos — não estão na plataforma. Quando a apuração chega a esses pontos, é necessário recorrer a outras fontes ou métodos.